DBike - Revista catarinense de cicilismo | Santa Catarina, 18 de maio de 2024 | Quem somos | Contato

A história preservada em Joinville

Todo o futuro de Valter Bustos foi definido por um momento inesquecível de sua infância, quando ainda morava em São Paulo: a primeira volta de bicicleta. “Foi a primeira vez em que tive a sensação de liberdade. Eu tinha sete anos e acabara de ganhar uma Caloi Fiorentina. Com ela, descobri um novo mundo, meu bairro parecia um local imenso a ser explorado e passei quase o dia inteiro andando de bicicleta. Quando cheguei em casa, minha mãe me batia e ao mesmo tempo ficava feliz por eu ter chegado bem”, relembra Valter com um sorriso. No outro dia, repetia sua aventura e foi assim diariamente até que a mãe deixou de se preocupar e passou apenas a exigir que o filho terminasse as tarefas de casa e da escola antes de sair.

Ele passou a fazer trocas de bicicletas com os amigos, ou seja, dava algum de seus brinquedos e recebia uma bike ou peças. Valter começou a acumular todo esse material quando tinha apenas 10 anos. Este foi o início do acervo que hoje está em exposição no Museu da Bicicleta, o MuBi, em Joinville, único museu de bicicletas da América Latina. Ao fazer seu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), ele não teve dúvidas, quis saber mais sobre bicicletas e suas histórias. Fez visitas a todas a bicicletarias de São Paulo e, além de descobrir histórias incríveis, ganhou peças, cartazes e muitos outros objetos que passaram a integrar o seu acervo pessoal. A bicicleta nunca deixou de ser o foco de sua vida. Valter prestou consultoria para a Caloi, escreve para revistas sobre bicicletas e é proprietário do museu. O acervo é formado por boa parte do que acumulou ao longo dos anos, que comprou, ganhou ou trocou. “Tenho mais de 19 mil peças em que estão incluídas fotografias, miniaturas, canecas decoradas, bicicletas, selos, cartões, uma coleção de campainhas, peças de bicicleta… Enfim, qualquer coisa que tenha o tema bicicleta entra para o acervo do museu”, afirma o curador. Existem objetos novos e outros muito antigos, como bicicletas que foram restauradas por Valter, mas que continuam com a “cara” original.

Primeiro ele tentou abrir um museu em São Paulo, mas foi convidado a vir para Santa Catarina mais precisamente para Joinville (uma das cidades com mais bicicletas por habitante do Brasil), para abrir o Museu da Bicicleta, um sonho que ele alimentava há muitos anos. Há 16 anos, o MuBi abriu as portas em um contrato de comodato com a prefeitura da cidade, que é conhecida por ser a terceira com maior número de ciclistas no ranking nacional. São muitas as preciosidades existentes no acervo. Para os adultos, a visita pode se tornar uma viagem no tempo ao reverem as bicicletas que fizeram parte da infância.

Vida sem carro

João Cassiano tem 60 anos e auxilia Valter no Museu da Bicicleta. Este trabalho é especial para João, pois trata de uma verdadeira paixão, do único meio de transporte que escolheu para se locomover durante toda a sua vida. Nunca se interessou por carros, sequer aprendeu a dirigir e não anda de ônibus. No bagageiro de sua bicicleta estão uma capa de chuva, um chapéu e mais alguns objetos para imprevistos. “Hoje tenho cinco bicicletas, esta é a que mais gosto, uma Monark dos anos 70. Tenho bicicleta desde os 10 anos de idade e, quando comecei a trabalhar, vinha de Guaramirim a Joinville pelas margens da estrada de ferro e assim chegava ao meu emprego, que era na  Cônsul”, relembra.

Nos anos 70 se mudou para Joinville e comprou a bicicleta pela qual tem tanto carinho. Toda sua família tinha este meio de transporte e a cidade era diferente, apenas um prédio despontava no horizonte da cidade das flores. “Era possível contar a quantidade de carros nas ruas. Na hora de saída das fábricas, as ruas ficavam fechadas, tal era quantidade de bicicletas. Hoje, todos tem carros e muita gente desiste de andar de bicicleta porque tem medo. Eu ando porque sou corajoso, mas é muito perigoso, os motoristas não respeitam. Já sofri quatro acidentes e em todos eles os motoristas assumiram a culpa”, conta. Com um sistema que integre todas as ciclovias já existentes e crie muitas outras, João acredita que Joinville possa voltar a ser uma cidade segura para os ciclistas.

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